Mochilando na Patagônia – Parte II: El Calafate, El Chaltén e Glaciar Perito Moreno

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Bastante satisfeito com a jornada em Ushuaia, desembarquei em El Calafate com o humor pleno e ansioso para conhecer aquela que prometia ser uma das maior es atrações da minha visita à Patagônia argentina: o gigante glaciar Perito Moreno (esse grandão na foto aí em cima). Naqueles dez quilômetros que separam o aeroporto da entrada da minúscula cidade, fiquei imaginando como seria caminhar sobre aquele gelo todo e como meu corpo se comportaria diante do frio extremo.

Depois da aventura no Cerro del Medio, minha perna direita ainda estava um tanto arisca e a ideia de caminhar por várias horas sobre um bloco de gelo gigante usando grampões nos pés me preocupava um pouco. Ainda mais diante das advertências que a Hielo y Aventura havia me passado dias atrás via e-mail. Mas sentado naquele ônibus, olhando para as montanhas passando, a empolgação e a ansiedade vinham num crescente tão  forte que desistir não era uma opção.

Felizmente. O que se segue é um relato detalhado sobre minha visita em 2014 ao Parque Nacional Los Glaciares, a caminhada Big Ice, um bate-e-volta a El Chaltén com direito a um circuito curto em torno do Fitzroy e minhas impressões da visita ao Museu Glaciarium e seu famoso Glaciobar, com preços, horários e dicas atualizadas.

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Feliz 2016

Feliz ano novo, pessoal.

Ainda essa semana retomo o blog com a segunda parte da viagem à Patagônia argentina e muitas outras novidades. A primeira delas: http://www.omochileiro.blog.br . Estamos de casa nova, por ora em teste, mas já funcionando. Visitem!

Agradeço a todos pelas constantes visitas, comentários e mensagens e desejo a todos muita paz, felicidade e viagens nesse grande 2016 que temos pela frente.

Aproveitando o ensejo, se você vai viajar nessas férias de verão, deixo meia dúzia de dicas bacanas que todos já conhecemos, mas às vezes nos esquecemos de aplicar.

  1. Ao viajar, procure minimizar os impactos ambientais de sua viagem: evite sair das trilhas delimitadas, levando sempre um saquinho para trazer seu lixo de volta; evite poluição sonora, deixando o som alto para lugares apropriados; respeite os costumes dos lugares visitados, prestigiando a cultura local e ajudando a economia do lugar, aproveitando para consumir produtos diferentes do que está acostumado.
  2. Lembre-se: todas as suas atitudes são verdadeiros atos políticos e geram consequências. Lembre-se de tratar os moradores da região visitada com respeito, mesmo que tenham um nível de instrução mais baixo que o seu, tendo em mente que cultura é algo que está sujeito a uma quantidade inimaginável de variáveis. O fato de as pessoas pensarem diferente de você deve ser motivo de enriquecimento, não de estresse.
  3. Longe de casa, prefira meios de hospedagens preocupados com a sustentabilidade da região. Ainda que não seja seu mote, tente usá-lo como critério de desempate.
  4. Antes de viajar, tire um tempo para  conhecer a história e os costumes da região para onde você vai. Valorizar o artesanato produzido por pessoas da comunidade local, comportar-se de forma que não incomode ou ofenda seus anfitriões, experimentar a culinária típica e conhecer aromas e sabores locais são experiências transformadoras.
  5. Antes de cair na estrada, tire todos os equipamentos das tomadas (TV, DVD, notebook, microondas e carregadores de bateria no modo stand-by também gastam energia). Não esqueça de hidratar suas plantas e verifique se não há alimentos que podem se estragar perdidos no canto da geladeira.
  6. Se você não for viajar, deixe o Netflix de lado por alguns dias e aproveite a tranquilidade das cidades grandes para caminhar em parques, ir ao cinema, visitar um museu, curtir uma boa peça de teatro ou simplesmente visitar lugares que sua rotina em horário comercial não permite. Aproveite seu tempo de forma diferente.

Boas férias e feliz 2016.

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Mochilando na Patagônia – Parte I: Ushuaia

Huskie

Conhecidíssimo como um dos melhores destinos de neve e esqui da América do Sul, Ushuaia é muito mais que isso. Ainda pacata nos dias de hoje, a cidade do fim do mundo oferece aos seus 50 mil habitantes e turistas do mundo inteiro uma miríade de passeios, bons restaurantes, locais para compras, cassinos e diversas atividades de aventura como expedições em 4×4, viagens de trenó, hiking e trekking.

Os viajantes comuns costumam contar suas peripécias focando no ponto de partida e no ponto de chegada, ignorando  os contratempos. Paul Theroux, romancista norte-americano de aventura do qual sou fã, escreveu um clássico sobre uma viagem que realizou nos anos 70 até a Patagónia, no extremo sul do continente americano, cujo texto é famoso por destacar não o destino em si, mas percurso e percalços no avançar.

Em “O Velho Expresso da Patagônia” , Theroux assevera que a Argentina é um país dividido entre as altas terras do norte, cheias de folclore, montanhas e colonos; e os pampas úmidos do sul, com suas fazendas de gado e grandes vazios, a com a maior parte do território ainda virgem (“pampas” deriva de uma palavra aimará que significa “espaço”). É uma visão bem desenvolvimentista,  mas têm seu fundo de verdade: a fronteira Sul da América é selvagem, extrema, bela e solitária. Rumo ao fim do mundo, as planícies áridas dão lugar às florestas de lengas, quase sempre cobertas de neve e mistério. Em Ushuaia, os Andes morrem no mar, mergulhando aos olhos dos turistas em águas geladas e perigosas. É nesse passo que relato minha viagem à região. Espero que gostem!

Vista da estrada

Separada do continente pelo estreito de Magalhães, a Terra do Fogo é um arquipélago com baixíssima densidade demográfica, comumente varrido por ventos fortes e pancadas de chuva.  Frio e umidade são constantes (a máxima no verão raramente ultrapassa os 10 graus) dado que as montanhas que circundam Ushuaia formam uma barreira natural contra os ventos antárcticos. Estive por lá em setembro de 2014, quando o inverno tinha ficado para trás e a temperatura mais alta que registrei foi de 8 graus. A maioria dos turistas aparecem no verão, quando os dias são mais longos e as temperaturas mais amenas, época perfeita para quem vai a Ushuaia para caminhar, passear e divertir-se. Mas se a sua praia é o esqui, julho no alto inverno é sua melhor escolha (e este post não é para você).

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A primeira viagem documentada ao extremo sul do continente americano foi realizada por Fernão de Magalhães em 1520, que apelidou a região de Terra do Fogo devido às fogueiras acesas pelos índios nas margens do outro lado do estreito. Altos, corpulentos (daí o termo Patagão, “pata grande”, por conta de seus pés avantajados) e com o hábito de andarem semi-nús, cobertos de gordura de foca, os primeiros habitantes  da região foram dizimados por doenças de brancos como sarampo e varíola, potencializadas pelo clima inóspito. Saiba mais sobre eles aqui e numa agradável visita ao museu dentro do Parque Nacional.

Ushuaia

O isolamento da região permanece, sendo impossível alcançar Ushuaia dirigindo pela Argentina (você precisa entrar e sair do Chile para chegar lá e viajar de ferry boat– veja dicas aqui ). De avião, LAN e Aerolineas Argentinas tem voos para Ushuaia, via Buenos Aires, saindo das maiores cidades brasileiras. A Aerolineas comumente é a opção mais barata, principalmente se você deixar para comprar o trecho interno quando chegar a Buenos Aires. E de ônibus, bem, custa o mesmo que via avião e são pouco mais de 3.000km…

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Bem servida em matéria de transportes, Ushuaia (“baía que penetra ao poente” em yámana) tem táxis, remises (táxis particulares são legalizados na Argentina) e ônibus coletivos para qualquer parte. A cidade também é plena de albergues (fiquei no barato e bem localizado Antarctica), pousadas e hotéis para todos os gostos e bolsos. Lojas, farmácias, postos de gasolina, bancos e mercados também estão presentes, nos horários mais diversos. A estrutura é muito boa e em quase todo ambiente a calefação está ligada, tornando a vida interna bastante agradável.

Reuni mais dicas gerais para uma boa mochilada por lá nesse post. E a seguir, meu relato dia a dia de uma viagem muito rica, variada e aventureira.

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Dicas para o Mochileiro em Ushuaia

Ushuaia - Barco 2

Visitar o fim do mundo sem gastar muito é uma tarefa complicada, mas não impossível. Como falei no relatei no post anterior – Mochilão, Neve e Natureza em Ushuaia, comprei minha passagem pela Aerolineas Argentinas porque era a única que oferecia Ushuaia na opção “múltiplos destinos”. Esta é a primeira dica: se você não pretende visitar Buenos Aires nessa viagem, compre os trechos São Paulo – Buenos Aires – Ushuaia nesse formato, pois sairá bem mais barato do que comprar os trechos separados. Tentei também Avianca, Tam e Gol, mas em qualquer opção ficava bem mais caro. Se você optar por ir na baixa temporada (abril/maio ou setembro/outubro) também pode se arriscar e comprar apenas o trecho que vai para a capital. Deixar para comprar a passagem para o fim do mundo por lá pode sair mais barato. Na alta, nem pensar.

E por falar em temporada, mesmo que seja primavera ou outono no hemisfério sul, como a cidade é a mais austral do mundo, a neve é garantida, especialmente nos locais mais altos como os cerros. Portanto, prepare-se para eventuais atrasos por conta de mau tempo. Também por conta do clima, vale a dica: Ushuaia reúne lagos, montanhas, cachoeiras, picos, florestas, geleiras, rios e ainda por cima está localizada numa baía. Atividades não faltarão, portanto, vale a pena pesquisar bem o que se quer fazer para chegar já com um itinerário na cabeça.

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Guia: Quais remédios levar para viajar

Você, eu e quase todo mundo conhece Adriana Calcanhoto. Discos, trilhas sonoras de novela, aquela voz maravilhosa, enfim, a cantora é uma celebridade por aqui. Quando vi sagalusanuma livraria a capa de seu debut na literatura, logo pensei tratar-se de um relato de viagem da cantora, com opiniões sobre locais para visitar, bons restaurantes e demais turistiquices. Nada disso! O que Adriana conta é como se sucedeu sua malfadada turnê em terras portuguesas do disco Maré, historinha bem longe do usual. A cantora não fala dos pontos turísticos porque simplesmente não os conheceu, já que passou vários dias e noites acordada devido a uma forte gripe e a uma mistura de medicamentos que a mergulharam num delirante surto psicótico. Encastelada no hotel, Adriana relata com pesar (e muito bom humor) todas as sensações de não poder conhecer absolutamente nada num país que julga tão interessante, tendo de enfrentar uma sucessão de entrevistas, um show para milhares de pessoas em que faltou luz e uma “maldita corrente de ar” que sugere tê-la feito engripar. Depois vem os médicos, os exames etc.

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Suores, vômitos, delírio e muita ironia servem de aviso aos viajantes incautos: em terras longe de casa, todo cuidado com os remédios é pouco, sobretudo se resolver misturá-los. Abaixo uma relação de remédios básicos para se carregar em viagens longas e dicas para se manter saudável antes, durante e depois da viagem. Boa viagem!

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Uma jornada inesquecível pelo Salar de Uyuni

– Vale a pena ver o Cementerio de Trenes? Ou vou direto a Uyuni?
– Se vale a pena ver o cementerio? Claro que vale, mas não sei se vale ir ATÉ LÁ pra ver!

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Claro que vale.

Parafraseando Paul Theroux , “a jornada é o mais interessante de tudo”.

O fato é que aquele senhor troncudo, com as marcas do tempo esculpindo-lhe o rosto, não poderia imaginar que a imensidão daquele lugar e sua natureza tão imponente causam um sentimento tão forte e ambíguo no mochileiro, que ele se sente pequeno ante sua força, mas extremamente privilegiado por vencê-lo na jornada. Para aquele homem era só um ponto no mapa, para mim era a forma mais completa de liberdade.

Ali mesmo me despedi do breve amigo, na porta do saguão do aeroporto de Calama. Entrei na van para nunca mais vê-lo, ao mesmo tempo em que me despedia de mim mesmo. De um “eu” que não existiria mais da mesma maneira.

Mas vamos ao que interessa.

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Relato: Uma semana no Deserto do Atacama

Se você chegou até aqui primeiro, conheça também o post com apresentação e dicas gerais do Deserto do Atacama para mochileiros. 

Nesta página, apresento um pequeno relato dessa viagem incrível pelo deserto mais alto e seco do mundo, que rolou em abril/2014. Fique a vontade para usá-lo como roteiro base ou início de suas pesquisas. Relembro aqui que não sou de planejar milimetricamente meus trajetos, nem horários, mas gosto de viajar com uma boa base de informações do lugar que vou visitar, sua história, lugares indicados para comer, dormir e atividades interessantes. Sabendo onde está e do que se gosta, é bem mais difícil se frustrar com o resultado. Funciona para mim, nem sempre vai funcionar para você. Só testando mesmo que se aprende.

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DIA 01 – São Paulo  – Santiago – Atacama

Ao contrário da minha última viagem ao Chile, dessa vez deixei Santiago de lado e peguei um voo da LAN de São Paulo para Calama, a cidade com serviço de aeroporto mais próxima de San Pedro do Atacama, com apenas uma escala em Santiago.

Entre Calama e Santiago são 1.227 km, que a LAN faz em cerca de 2h. Há 57 voos por semana entre as duas cidades, então provavelmente você não terá problemas para chilebenvenidoscomprar sua passagem aérea. Como já disse aqui, comprei com alguma antecedência para ter a viagem melhor planejada, já que a velha dica de deixar para comprar a passagem em Santiago não funciona mais. Em abril, comprando num fim de semana de promoções da TAM e/ou da LAN, você pode conseguir essa passagem por cerca de 500 reais ida-e-volta. Foi mais ou menos o preço que paguei. Os voos correram normalmente, sem qualquer problema.

A imigração foi feita em Santiago como de costume. Saindo do avião, segui as placas com indicações em inglês e espanhol até a fila de controle de passaporte. Tudo muito rápido e sem qualquer pergunta ou constrangimento (ao contrário do que aconteceria, dias depois, no meu retorno ao Chile pela Bolívia). Já havia preenchido o formulário de imigração que me deram no avião, que foi dividido ao meio pelo oficial, que ficou com a parte de cima e me retornou a outra metade dentro do passaporte, desejando boa viagem. Sempre fico nervoso nessa parte, com medo de perder a minha via e ter que responder perguntas, pagar multas extorsivas ou ter problemas para deixar o país. Felizmente, como sempre, deu tudo certo , retirei minha mala na esteira e segui o corredor até a fila do scanner da alfândega. Depois de tirar dinheiro num cajero automático (caixa eletrônico em espanhol – você pode sacar com seu próprio cartão brasileiro se ele tiver o logotipo “plus” na face detrás) procurei um lugar para fazer um lanche. Assustado com os preços do La Pausa e do Gatsby, tomei um café no Dunkin Donnuts mesmo, dei aquela esticada nas pernas e  redespachei minha mochila cargueira no guichê da LAN.

Já em Calama, aeroporto minúsculo, retirei as malas e dei uma olhada no lugar. Em reformas drásticas na época, estava tudo empoeirado e bastante bagunçado, porém com indicações suficientes para até um cachorro encontrar seu destino. Rapidamente visualizei o  balcão da empresa Licancabur, que havia reservado uma semana antes, paguei a viagem ida-e-volta e em meia-hora já estava a caminho do grande deserto.

Só esse trecho de estrada entre o aeroporto e o povoado de San Pedro já arrepia. A paisagem vai ficando árida, as casas vão sumindo, o asfalto chileno bem cuidado e brilhoso vai se tornando rapidamente um intruso na paisagem e quando menos se espera, San Pedro já te abraçou com suas ruas de areia, casas de adobe e aquelas bandeirinhas multicoloridas pra todos os lados.

A van me deixou na porta do Campo Base por volta das 15h. Informações coletadas, dicas anotadas, larguei minha cargueira no armário do quarto, tomei uma ducha rápida e me mandei pro centro para pesquisar entre as agências. Tinha muito a fazer: pesquisar preços dos passeios do Atacama, da ida ao Salar de Uyuni na semana seguinte, encontrar a agência da Space Orbs, trocar boa parte dos meus dólares por pesos chilenos, conseguir um bom lugar para um bom jantar e quem sabe encontrar alguém para dividir os rolês pelo deserto.

Levei cerca de 3h para percorrer as principais agências e dar uma boa olhada no centro. Com as boas empoeiradas e o rosto suado, comi uma empanada e tomei uma cerveja na rua principal, já com tudo fechado para a primeira semana da viagem. Ao voltar ao hostel depois do pôr-do-sol para pegar uma blusa e descarregar a papelada, dei com meus companheiros de quarto tomando banho, conversando e trocando ideias sobre os atrativos da região. Brasileiros, franceses, americanos, todos ficamos conversando até tarde no redário e entornando alguns vinhos que compramos no centro. Ótimo primeiro dia.

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